Reabre o céu depois de uma chuvada
no azul do dia.
É o azul do nada com que se fazem os deuses e a poesia.

Vergílio Ferreira


07/08/2014

Um relâmpago fugitivo é a vida,
que mal dá tempo de a sentirmos passar.
Imutável é a face da terra, e a do céu;
mas quão rápido muda o nosso próprio rosto!

Li Tai Po. Mesa de amigos


Dominar a natureza mas dominar primeiro o instinto de dominar a natureza.
dominar a Natureza mas dominar depois o instinto de dominar a Natureza.
Não dominar a Natureza.

Gonçalo M. Tavares. Livro da dança
As casas

As casas habitadas são belas
se parecem ainda uma casa vazia
Sem a pretensão de ocupá-las
tornam-se ténues disposições
os sinais da nossa presença:
um livro
a roupa que chegou da lavandaria
por arrumar em cima da cama
o modo como toda a tarde a luz foi
entregue ao seu silêncio

Em certos dias, nem sabemos porquê
sentimo-nos estranhamente perto
daquelas coisas que buscamos muito
e continuam, no entanto, perdidas
dentro da nossa casa

José Tolentino de Mendonça. De igual para igual



Arnold Böckin

A física desta pedra
O nome daquela árvore
A nuvem e o mar
O que a palavra diz
A hora de nascer
Enfim o mundo e eu
Porquê?

António Dacosta. A cal dos muros
Hoje de manhã saí muito cedo,
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer...

Não sabia que caminho tomar
Mas o vento soprava forte,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.

Alberto Caeiro
Poemário Assírio & Alvim (8 de dezembro de 2003, dia de Lua Cheia)

04/08/2014

O ditado dizia «grão a grão enche a galinha o papo». Hoje, temos a vergonha do pequeno grão e temos tanta pressa e tanta ambição que já não há galinhas, só há pavões. Reina a expectativa do «depressa e muito». Pagaremos mais tarde esta ilusão de grandeza e velocidade. A vida nos dirá que o depressa sai mal e o muito só é muito para muito poucos.

Mia Couto. E se Obama fosse africano? e outras interinvenções
A história de cada um de nós é a de um indivíduo a caminho de ser pessoa. O que nos faz ser pessoa não é o Bilhete de Identidade. O que nos faz pessoas é o modo como pensamos, como sonhamos, como somos outros. Estamos, enfim, falando de cidadania, da possibilidade de sermos únicos e irrepetíveis, da habilidade de sermos felizes.
Um dos problemas do nosso tempo é que perdemos a capacidade de fazermos as perguntas que são importantes. A escola nos ensinou apenas a dar respostas. A vida nos aconselha a que fiquemos quietos e calados. Uma das perguntas que pode ser importante é esta: O que nos dificulta o caminho para transitarmos de indivíduos para pessoas? O que precisamos para sermos pessoas a tempo inteiro?

Mia Couto. E se Obama fosse africano? e outras interinvenções