azul do nada
Reabre o céu depois de uma chuvada
no azul do dia.
É o azul do nada com que se fazem os deuses e a poesia.
Vergílio Ferreira
26/06/2017
11/04/2016
Nunca soube o teu nome. Entraste numa tarde,
por engano, a perguntar se eu era outra pessoa -
um sol que de repente acrescentava cal aos muros,
um incêndio capaz de devorar o coração do mundo.
Não te menti; levantei-me e fui levar-te à porta certa
como um veleiro arrasta os sonhos para o mar; mas,
antes de te deixar, disse-te ainda que nessa tarde
bem teria gostado de chamar-te outra coisa - ou
de ser gato, para poder ter mais do que uma vida.
Maria do Rosário Pedreira. Nenhum Nome Depois. Lisboa: Gótica, 2005, p. 13.
por engano, a perguntar se eu era outra pessoa -
um sol que de repente acrescentava cal aos muros,
um incêndio capaz de devorar o coração do mundo.
Não te menti; levantei-me e fui levar-te à porta certa
como um veleiro arrasta os sonhos para o mar; mas,
antes de te deixar, disse-te ainda que nessa tarde
bem teria gostado de chamar-te outra coisa - ou
de ser gato, para poder ter mais do que uma vida.
Maria do Rosário Pedreira. Nenhum Nome Depois. Lisboa: Gótica, 2005, p. 13.
27/07/2015
Pai, dizem-me que ainda
te chamo
Pai, dizem-me que ainda te chamo, às
vezes, durante
o sono - a ausência não te apaga como a bruma
sossega, ao entardecer, o gume das esquinas. Há nos
meus sonhos um território suspenso de toda a dor,
um país de verão aonde não chegam as guinadas
da morte e todas as conchas da praia trazem pérola. Aí
nos encontramos, para dizermos um ao outro aquilo
que pensámos ter, afinal, a vida toda para dizer; aí te
chamo, quando a luz me cega na lâmina do mar, com
lábios que se movem como serpentes, mas sem nenhum
ruído que envenene as palavras: pai, pai. Contam-me
depois que é deste lado da noite que me ouvem gritar
e que por isso me libertam bruscamente do cativeiro
escuro desse sonho. Não sabem
que o pesadelo é a vida onde já não posso dizer o teu
nome - porque a memória é uma fogueira dentro
das mãos e tu onde estás também não me respondes.
Maria do Rosário Pedreira. Nenhum Nome Depois
o sono - a ausência não te apaga como a bruma
sossega, ao entardecer, o gume das esquinas. Há nos
meus sonhos um território suspenso de toda a dor,
um país de verão aonde não chegam as guinadas
da morte e todas as conchas da praia trazem pérola. Aí
nos encontramos, para dizermos um ao outro aquilo
que pensámos ter, afinal, a vida toda para dizer; aí te
chamo, quando a luz me cega na lâmina do mar, com
lábios que se movem como serpentes, mas sem nenhum
ruído que envenene as palavras: pai, pai. Contam-me
depois que é deste lado da noite que me ouvem gritar
e que por isso me libertam bruscamente do cativeiro
escuro desse sonho. Não sabem
que o pesadelo é a vida onde já não posso dizer o teu
nome - porque a memória é uma fogueira dentro
das mãos e tu onde estás também não me respondes.
Maria do Rosário Pedreira. Nenhum Nome Depois
10/05/2015
Singela homenagem a Herberto Helder, sem comentários
Mas há outra língua, que falávamos antes de nascer. Uma língua muito antiga, não servia para nada, não era a língua do comércio com os homens. Não era decerto uma língua de sedução, para subornar, ou para dominar. Dela provinham as palavras, estas palavras: fluidos, vento, bilha, órfã, carris, dormir, coração, constelada, cisne, lasciate, vapor, contorno, opala, vem... Existiam ao mesmo tempo que a vida, não desligadas dela. Eram uma dança, uma natação, um voo, eram movimento.
Tínhamo-las perdido de vista.
Depois, hoje, reencontradas, são elas que me reencontraram, e me obrigam a lembrar.
Língua insensata que avança, magnificamente autónoma como um corpo de delfim, a correr sem esforço ao lado do meu corpo, ultrapassando, iludindo-o, rápido através da massa de água que não consegue sustê-lo.
Herberto Helder. Magias
09/05/2015
12/02/2015
Às vezes sabe bem recordar a frescura de Júlio
Dinis. Está a chegar o Dia de S. Valentim, por isso, aqui fica esta deliciosa
e, ao mesmo tempo, amarga «História de uns beijos». Uma preciosidade que
descobri entre os livros do meu avô.
História de uns beijos
Ouvia gabar os beijos,
Dizer deles tanto bem,
Que me nasceram desejos
De provar alguns também.
Esta fruta não é rara,
Mas nem toda tem valor,
A melhor é muito cara
E a barata é sem sabor.
Colhi-os dos mais mimosos,
Provei três; mas, por meu mal,
Ao princípio saborosos,
Amargaram-me afinal.
Um colhi eu de uma bela
Que era Rosa, sem ser flor,
Se tinha espinhos como ela,
Dela também tinha a cor.
Vi-a dormir e furtei-lhe
Um beijo, que a acordou,
Eu gostei, porém causei-lhe
Tal susto que desmaiou.
Logo que a vi sem sentidos
Fugi sem outro lhe dar,
Pois beijos sem ser pedidos
Não são coisas p’ra brincar.
Porém deste beijo ainda
Pouco tive que dizer,
Pois a tal rosa… era linda
E tornou a reviver.
Outra vez, duma morena,
Olhos azuis, cor do céu,
Corpo esbelto, mão pequena,
Um beijo me apeteceu.
Pedi-lho, e então por bons modos,
Pedi-lho do coração.
Zombou dos meus rogos todos
E respondeu-me que não.
Zombei, como ela zombava
E um beijo à força lhe dei;
Mas… bem dado ainda não estava
E c’um bofetão o paguei.
Custou-me caro o desejo:
Que mui caro ela o vendeu.
Pagar por tal preço um beijo!
Assim não os quero eu.
Este mais do que o primeiro
Me deixou fraca impressão;
Quis provar inda um terceiro,
Para não jurar em vão.
Mas não quis fruta roubada,
Que mal com ela me dei;
Uma dama delicada
Ofereceu-ma… eu aceitei.
Ai que boa fruta era!
Estava mesmo a cobiçar.
Passar a vida quisera,
Tal fruta a saborear.
Mas no meio da colheita…
Da fruta o dono apareceu;
Zelosos olhos me deita:
Se zelava o que era seu!
Vendo o caso mal seguro
Eu logo ali lhe jurei
Restituir até com juro
A fruta que lhe tirei,
E acaso não discordasse,
Não me parecia mal
Que a ele os juros pagasse,
E à senhora… o capital.
Esta sensata proposta
Em fúrias o arrebatou,
E, por única resposta,
P’ra luta se preparou…
Oiço ainda gabar os beijos,
Dizer deles muito bem,
Mas findaram-me os desejos,
Já sei o sabor que têm.
Júlio Dinis. 1859
NOTA DO AUTOR – Desde já afirmo que não fui eu o
protagonista desta história. Ainda não tive uma indigestão deste género de
fruta, e nem sei, para falar francamente, se mesmo quando a tivesse, a ficaria
abominando para sempre. O caso, enquanto a mim, não foi de natureza que
justificasse semelhante aversão; mas enfim há suscetibilidades tais… Não
afirmamos, contudo, que a dieta tenha sido escrupulosamente observada.
Nesta espécie de fruta, parece-me que, ao contrário
do que se diz para as outras, é a qualidade e não a quantidade que faz o mal.
Julio Diniz. Poesias. Lisboa: Editores J. Rodrigues & C.ª, 1926.
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