Reabre o céu depois de uma chuvada
no azul do dia.
É o azul do nada com que se fazem os deuses e a poesia.
Vergílio Ferreira
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11/04/2016
28/06/2014
Procuro-te no corredor onde se
ouve sempre o tiquetaque do pêndulo do relógio, de quarto em quarto de hora
soam badaladas que são a música da casa, talvez o próprio tempo que nela se
condensou, pode tocar-se o tempo e ouvi-lo, eu sei que pode.
Há retratos a óleo, cheira a
alfazema, madeira velha, gente que já não há, oiço o tilintar das chaves que
minha tia traz à cintura e são como um ceptro, um símbolo do seu poder dentro
da casa. Abro a porta da sala de visitas, do lado esquerdo: mais quadros e
sacos de alfazema sobre as mesas, encosto o rosto à porta envidraçada que dá
para o varandim onde todas as tardes de julho aparecias à hora do chá. Passo a
mão pelo piano. A tia sentava-se e tocava um tango argentino, sempre o mesmo,
tocava-o com tal intensidade que muitas vezes me perguntei se não seria a sua
música interior, a sua paixão secreta, o seu tango dançado de uma só vez.
É de novo julho, a tia está
sentada ao piano, enlaço-te, encaixamos um no outro, forma com forma, tudo se
ajusta. Os nossos corpos têm a mesma batida, o mesmo ritmo, o mesmo tango por
dentro. Alma com alma, diria o padre.
Manuel Alegre. A terceira rosa
25/06/2014
04/06/2014
Deliciei-me outro dia com
este jogo de palavras, olhos e “coraçom”. Na poesia trovadoresca estão as nossas raízes, o nosso
início. Para ler devagar.
Queixei-m'eu
destes olhos meus;
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mais ora, se
Deus mi perdom!,
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quero-lhis
bem de coraçom,
|
e des
oimais quer'amar Deus;
|
ca mi
mostrou quem hoj'eu vi:
|
ai!
que parecer hoj'eu vi!
|
Sempre m'eu
d'Amor queixarei,
|
ca sempre mi
dele mal vem;
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mais os meus
olhos quer'eu bem,
|
e já sempre
Deus amarei;
|
ca
mi mostrou quem hoj'eu vi:
|
ai!
que parecer hoj'eu vi!
|
E mui gram
queixum'hei d'Amor,
|
ca sempre mi coita sol dar;
|
mais os meus
olhos quer'amar,
|
e quer'amar
Nostro Senhor;
|
ca
mi mostrou quem hoj'eu vi:
|
ai!
que parecer hoj'eu vi!
|
E se cedo nom
vir quem vi,
|
cedo morrerei
por quem vi.
|
João Garcia de Guilhade
30/12/2011
Encanto

“As pessoas que se estimam nunca se deviam apartar; a culpa tem-na a nossa complicada civilização; o encanto seria que os que se amam se juntassem em tribos, acampando aqui e além com as suas afeições, e a sua bilha de água, and settling down to be happy, anywhere, under a tree.”
Eça de Queirós, carta a Emília de Pamplona (1885)
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