Reabre o céu depois de uma chuvada
no azul do dia.
É o azul do nada com que se fazem os deuses e a poesia.
Vergílio Ferreira
08/06/2014
04/06/2014
Deliciei-me outro dia com
este jogo de palavras, olhos e “coraçom”. Na poesia trovadoresca estão as nossas raízes, o nosso
início. Para ler devagar.
Queixei-m'eu
destes olhos meus;
|
mais ora, se
Deus mi perdom!,
|
quero-lhis
bem de coraçom,
|
e des
oimais quer'amar Deus;
|
ca mi
mostrou quem hoj'eu vi:
|
ai!
que parecer hoj'eu vi!
|
Sempre m'eu
d'Amor queixarei,
|
ca sempre mi
dele mal vem;
|
mais os meus
olhos quer'eu bem,
|
e já sempre
Deus amarei;
|
ca
mi mostrou quem hoj'eu vi:
|
ai!
que parecer hoj'eu vi!
|
E mui gram
queixum'hei d'Amor,
|
ca sempre mi coita sol dar;
|
mais os meus
olhos quer'amar,
|
e quer'amar
Nostro Senhor;
|
ca
mi mostrou quem hoj'eu vi:
|
ai!
que parecer hoj'eu vi!
|
E se cedo nom
vir quem vi,
|
cedo morrerei
por quem vi.
|
João Garcia de Guilhade
MAR NOSSO
Emocionadamente
Te reencontro
hoje
e
sempre
Mar nosso
que estás na terra
nesta
minha
tua nossa
terra
e és sempre a mesma bênção
de água
a mesma mágoa
doce
o mesmo indizível júbilo.
Teresa Rita Lopes. O sul dos meus
sonhos
Etiquetas:
água,
júbilo,
mar,
reencontro,
Teresa Rita Lopes
ETERNA INDEFINIÇÃO DE TUDO
As hortênsias vão mudando de cor com a idade.
Como as pessoas.
Quando desabrocham
as inúmeras pétalas do novelo são rosadas
depois ficam azuis depois lilases
parece que o lilás
é a cor mais espiritual.
Gosto mais delas assim
furta-cores.
As cores
intensas sem cambiantes
cansam-me.
Gosto delas
indecisas
Sorrindo
para a eterna indefinição de tudo.
Teresa Rita Lopes. O sul dos meus
sonhos
Muito obrigada, queridas, pela magia que me trouxeram neste livro de poesia. Mesmo imóvel neste sofá preto, sonho e fujo para mundos coloridos.
O JARDIM QUE OS DEUSES ME DERAM
Todas as manhãs (ou quase) saio para o campo
mexo na terra abro tocas para novas raízes
assisto ao parto duma folha ou duma flor
(ao nascer todas as vidas são o mesmo enternecedor
milagre)
e isto sem sair da
minha varanda
estuante de verde
de vasos de todos os tamanhos
de plantas de todas as cores e feitios.
Este o jardim que os deuses me deram.
Se fosse maior
e a sério se calhar não conseguia cuidar dele.
Fecho os olhos e estou na selva. Oiço os pássaros
inúmeros.
Cheiro a seiva
na brisa.
O meu jardim
é pequeno como a minha vida. Como todas as vidas.
Também a Terra não é mais do que um quintal
do Universo.
Que digo
eu? Que um canteiro.
Ou melhor: um pequeno vaso.
Tamanho de um dedal.
Mas qual do Universo! De uma galáxia
se tanto.
Ou talvez só do nosso sistema solar.
Somos tão ínfimos
que só podemos amar coisas à nossa dimensão.
Por isso
é que se Deus houvesse o não poderíamos amar.
Só deuses pouco maiores do que nós. Ou Jesus. Ou Buda.
Ou o pequenino ser amado em que ocasionalmente
a divindade encarna.
Tão inexplicavelmente.
Teresa Rita Lopes. O sul dos meus
sonhos
20/05/2014
Porque há que imaginar o impossível para resolver o quotidiano. A literatura tem do dom de ir mais além do que aquilo que se observa a olho nu. Mostra tudo o que a ciência nos explicou e vai mais além, resgatando também tudo o que a ciência despreza ou não consegue explicar. Permite-nos ver as coisas por dentro e por trás, inclusive apresenta-nos o mundo com aspetos diferentes dos conhecidos e assim obriga-nos a refletir e ensina-nos o caminho do pensamento e da reflexão.
Há que ler para tornar o nosso lar maior, a nossa linguagem, a nossa memória, o nosso pensamento, a nossa imaginação e ter mais oportunidades de superar o cerco sanitário da ignorância.
Rodolfo Castro. A intuição leitora, a intenção narrativa
Há que ler para tornar o nosso lar maior, a nossa linguagem, a nossa memória, o nosso pensamento, a nossa imaginação e ter mais oportunidades de superar o cerco sanitário da ignorância.
Rodolfo Castro. A intuição leitora, a intenção narrativa
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