Reabre o céu depois de uma chuvada
no azul do dia.
É o azul do nada com que se fazem os deuses e a poesia.

Vergílio Ferreira


22/10/2014

A mística do instante, de José Tolentino Mendonça. Prior Velho: Paulinas, [2014].


Cansaço
A verdade é que as nossas sociedades ocidentais estão a viver uma silenciosa mudança de paradigma: o excesso (de emoções, de informação, de expectativas, de solicitações…) está a atropelar a pessoa humana e a empurrá-la para um estado de fadiga, de onde é cada vez mais difícil retornar. O risco é o aprisionamento permanente nesse cansaço, como explicava profeticamente Fernando Pessoa: «Estou cansado, é claro./De que estou cansado não sei:/De nada me serviria sabê-lo/Pois o cansaço fica na mesma.»
Aproximação da natureza
Ao mesmo tempo que floresce a indústria dos perfumes, desaprendemos a distinguir o aroma das flores. Por mais que isso seja dez mil vezes mais prático, passar pela frutaria do inodoro hipermercado não é a mesma coisa que atravessar a catedral de aromas de um pomar. (…) A nossa distância da natureza é tão grande que deixamos de saber coisas tão elementares como caminhar descalço, dobrar-se na clareira e afastar mansamente as folhas da fonte para beber devagarinho, ou acariciar a vida desprotegida que se avizinha de nós. Assim nos tornamos os «analfabetos funcionais» que somos, resumia o cineasta Ingmar Bergman. Não será tempo de voltarmos aos sentidos? Não será esta uma oportunidade propícia para os revitalizarmos? Não é chegado o instante de compreender melhor aquilo que une sentidos e sentido?
Escutar
Escutamos com os nossos ouvidos os rumores do mundo externo, seja o ruído, as vozes, a música que nos consola. Contudo, quando falamos da escuta desinteressada do outro, sentimos que há um outro nível de audição que precisamos de aprender. Não há apenas uma escuta com os ouvidos, mas também um escutar com o coração, que mais não é do que uma escuta profunda, onde todos os sentidos nos são úteis.
Momentos da vida
Observamos muitas vezes em nós próprios um analfabetismo perante as expressões fundamentais da vida. Até termos certezas, até praticamos, até sabemos, mas há momentos da vida que nos deixam sem palavras, que nos fazem sentir sem apoio: uma doença, um incidente, uma crise, ou então uma grande alegria, um grande encontro… Em determinadas circunstâncias damos por nós num caminho que parece paralelo, porque a fé não tem suficiente capacidade de hospitalidade do que somos ou daquilo em que nos tornamos.
Repouso, libertação
O corpo deve encontrar-se não só na atividade, mas também no repouso, libertar-se da pressão do imediato, do peso das solicitações, abrindo-se em certos instantes sem porquê, como o mistério dizia que florescem as rosas. Encontraremos então, finalmente, tempo para contemplar, para nos deliciarmos com a audição e o sabor, para sentir o perfume daquilo que passa, para tocar, ou quase tocar, aquilo que permanece.
Esperança
A esperança mantém-nos vivos. Não nos permite viver macerados pelo desânimo, absorvidos pela desilusão, derrubados pelas forças da morte. Compreender que a esperança floresce no instante é experimentar o perfume do eterno.
…
A Vida que se escreve com maiúscula, aquela que é digna desse nome, não é outra coisa que uma operação esperançosa, e de alto risco na maior parte dos casos. Sem esperança, só notamos a pedra, o caráter tosco, o obstáculo fatigante e irresolúvel. É a esperança que entreabre, que faz ver para lá das duras condições a riqueza das possibilidades quinda escondidas. A esperança é capaz de dialogar com o futuro e de o aproximar. A nossa existência, do princípio ao fim, é uma profissão de fé na esperança. (…) A semente para frutificar precisa da mão que a atire para mais longe. O barco precisa de quem, enamorado pela viagem, seja capaz de o ajudar a deixar a quietude ilusória do porto. A página precisa de quem arrisque contar uma história. Nas coisas mais pequenas como nas grandes encontramos o mesmo chamamento à esperança.
Instante
Se observarmos bem, somos continuamente despojados do passado e, por mais que façamos, não conseguimos antecipar do futuro qualquer parcela, por ínfima que seja. Só nos resta o instante, só instante nos pertence. (…) É a frágil ponte de corda que une o tempo à promessa.
Solidão hoje
A cultura contemporânea deixou de nos preparar para a solidão. Na maior parte das vezes é uma aprendizagem que temos de fazer em cima dos próprios acontecimentos, ou na sua dolorosa ressaca, e de forma muito desacompanhada. (…) A amizade e o amor são formas de codividir, diminuir, dar serenidade ou potenciar criativamente a solidão, mas o assobio ininterrupto da solidão continuará a fazer-se ouvir no abraço redondo dos amantes ou na ronda magnífica dos amigos. Recordar-se disso é humanizar o modo como julgamos e tocamos a realidade.
Paciência
Eu diria que o exercício da paciência começa pela aceitação esperançosa da vida. Ela coloca-nos face a face com a vulnerabilidade, aquela própria e a dos outros. (…) Não se deve confundir paciência com indecisão, passividade, escassa coragem. Pelo contrário: é a audácia de não se deixar instrumentalizar pela precipitação ou bloquear pelo temor, investindo ativamente o nosso tempo na gestão das expressões complexas e inesperadas da vida, mas fazendo-o com sabedoria, serenidade e atitude construtiva. Gosto muito do modo como São Tomás de Aquino explica a paciência. Diz ele: a paciência é a capacidade de não desesperar.
Escuta
 Numa cultura de avalanche como a nossa, a verdadeira escuta só se pode configurar como um recuo crítico perante o frenesim das palavras e das mensagens que a todo o minuto parecem aprisionar-nos. Experimentamos como os modelos de vida impostos são atordoantes. A compensação para as nossas existências extenuadas é o entretenimento. Porém, a própria palavra «entreter» é reveladora: entre-ter, ter ou manter entre, numa espécie de suspensão que nos captura. E a dada altura, já não vivemos em lado nenhum, numa no man’s land que é ao mesmo tempo a nossa morada e o nosso exílio. A arte da escuta é, por isso, um exercício de resistência. Ela estabelece uma descontinuidade em relação ao real aparente, à sucessão ociosa dos contactos, à enxurrada que a telenovelização do quotidiano (seja ele político, económico ou cultural) comporta. A escuta constitui, por vezes, uma cesura, um corte simbólico, uma recusa, uma deslocação. Uma coisa é certa: sem ela, rapidamente a nossa vida se torna invadida, colonizada, uma vida que não nos pertence.
Viagem
A geografia tende inevitavelmente a tornar-se metafórica e ninguém que caminhe sobre o mundo não acaba, a certo momento, por se dar conta, talvez com alegria, talvez com dor, que vem caminhando sobretudo dentro de si. (…)
Desenganem-se os que têm as viagens apenas por exteriores. Não é simplesmente a cartografia da paisagem que os homens palmilham. Deslocar-se, queira-se ou não, implica uma mudança de posição; uma alteração ao ângulo habitual; uma exposição ao diverso; uma maturação do próprio olhar; um reconhecimento de que alguma coisa nos falta; uma adaptação a realidades, tempos o linguagens, ou a descoberta de uma incapacidade para tal; um confronto inexcusável; um diálogo tenso ou deslumbrado que nos deixa, necessariamente, com uma tarefa ulterior. A experiência da viagem é a experiência da fronteira e do aberto, de que cada um de nós precisa para ser.
Tempo
O ponto de sabedoria é aceitar que o tempo não estica, que ele é incrivelmente breve e que, por isso, temos de vivê-lo com o equilíbrio possível. Não nos podemos iludir com a lógica das compensações: que o tempo que roubamos, por exemplo, às pessoas que amamos, procuraremos devolvê-lo de outra maneira, organizando um programa ou comprando-lhes isto e aquilo; ou o que retiramos ao repouso e à contemplação, vamos tentar compensar numas férias extravagantes. A gestão do tempo é uma aprendizagem que, como indivíduos e como sociedade, precisamos de fazer.
Nós e os outros
A nossa história começa antes de nós e persistirá depois. Somos o resultado de uma cadeia inumerável de encontros, de gestos, boas vontades, sementeiras, afagos, afetos. Colhemos inspiração e sentido de vidas que não são nossas, mas que se inclinam pacientemente para nós, iluminando-nos, fundando-nos na confiança.



15/08/2014

On Angels

All was taken away from you: white dresses,
wings, even existence.
Yet I believe you,
messengers.

There, where the world is turned inside out,
a heavy fabric embroidered with stars and beasts,
you stroll, inspecting the trustworthy seams.

Short is your stay here:
now and then at a matinal hour, if the sky is clear,
in a melody repeated by a bird,
or in the smell of apples at close of day
when the light makes the orchards magic.

They say somebody has invented you
but to me this does not sound convincing
for the humans invented themselves as well.

The voice - no doubt it is a valid proof,
as it can belong only to radiant creatures,
weightless and winged (after all, why not?)
girdled with the lightning.

I have heard thar voice many a time when asleep
and, what is strange, I understood more or less
an order or an appeal in an unearthly tongue:

day draws near
another one
do what you can.

Czeslaw Milosz
Sons e palavras encantatórios. Tenho saudades de falar em inglês, da beleza de um poema dito em inglês. Descobri este texto num folheto da Expo'98.

ANOTHER


If it is sweet beneath a pleasant sky
In early summer, to watch the morning dress
In fleeting flowers, and watch a stream caress
Green banks and lick its sands, as it slips by:

If it is sweet to hear from restless lovers,

With verses modulating, and their ardors,
Among the deep and shady archard's odors,
Their innocent defiance of all others:

Is it is sweet when sea and sky are seen

Dyed indigo by Love's beloved rhymes
that waken hearts and turn rich meadows green:

Tis sweeter yet to see you, vanquished by my cries,

To give myself unto your swooning eyes,
Oh Death, love's death, far better than life's lies.

Manuel Maria Barbosa du Bocage

Trad. de Alexis Levitin
Mulheres timorenses na UNAMET

Levantam-se cedo e começam a lida

queimaram-lhes a casa mas elas próprias são a casa
lavam os filhos e varrem o chão
contra a morte elas celebram os quotidianos rituais da vida
e em cada gesto refazem o lar ausente
e em cada uma renasce a terra destruída.

Timor é onde elas estão

são elas o sol nascente.

Manuel Alegre
Março-29-53. O Diário é uma forma patológica de comportamento. Os seus autores não são doentes de nenhuma doença que possa classificar-se. São doentes de si mesmos. Eles reinventam ao mesmo tempo a doença, o médico e o remédio. Um Diário é a fabricação contínua dessa febre artificial, o mais injustificável dos processos literários de comunicar consigo próprio ou com o próximo.
O ato de fazer diário não tem defesa possível a não ser para quem tiver a coragem pública de Montaigne de se confessar mais interessante que o resto do Universo. Como processo de autoconhecimento é ilusório. É o ato de escrever um diário que é mais revelador sobre a alma de quem o escreve do que tudo quanto nele se escreve. O único tipo de Diário justificável seria de caráter puramente utilitário, eu quero dizer de utilidade imediata e pessoal, no género de um livro de cozinha onde se registem receitas úteis...
A grande justificação moral do Diário é a de ser uma tentativa de esclarecimento total do Homem através da humanidade de um homem. Esta vontade de sinceridade arrasta-se de Montaigne a Rousseau, de Rousseau a Gide; mas é uma falsíssima sinceridade. O diário é tanto mais sincero (ou tem mais possibilidades) quanto o seu autor mantenha consigo mesmo a relação de um público com um desconhecido absoluto. Um literato que escreve um diário só pode fazer um diário literário. Ele eliminou, escolheu, escolheu-se, pensou. A pose é absolutamente flagrante quando o autor exprime a vontade absurda de não posar. Escrever é já posar mesmo quando a intenção é simplesmente objetiva: escrever um diário é posar permanentemente para si mesmo.
(...)
Que vale passarmos a vida a construirmo-nos para nós mesmos como isentos, puros, excecionais, generosos, humildes quando denunciamos uma avidez de nós próprios ignorada ou um tom de voz, um orgulho insuspeitado que afronta os céus? Porquê testemunhar da nossa radical solidão? Talvez seja radical sim, mas a desse que se sentou ao meu lado no elétrico e que quis talvez dizer-me alguma coisa que jamais me diria?
Solitários esses que têm cinco, dez volumes para escarrar na face do público a sua solidão não soltária, a sua divina solidão?
MERDA.

Vence, 3 de fevereiro 91. De regresso de um passeio breve abro a cancela do jardim e deparo comigo absorto diante do cipreste que projeta a magra sombra no branco da casa. Assim, distraído de mim, no intervalo de nada, descobri num segundo que são as coisas que nos amam e não o contrário. Em silêncio amparam-nos por existir sem ter existência e esta calada vida é um olhar pousado sobre nós. Um aceno de olhos, um abraço sem mãos. De quem?

Guarda, outubro de 95. Quem não quer ser homenageado não aceita homenagens. Eu não tive a coragem de a não aceitar. Parecia-me um orgulho maior do que recebê-la como dádiva dos outros. Mas sei que a pagarei cara. Quando a revista «Prelo» me consagrou um número especial [Maio de 1984] fiquei seis meses sem poder escrever uma linha. Talvez mais vivo para outros. Mas de luto por mim mesmo.


Eduardo Lourenço
Público Magazine, 21 abril 1996

07/08/2014

Nas caixas de lápis guardam os meninos os seus sonhos.

Ramón Gómez de la Serna. Greguerías (trad. de Jorge Silva Melo)


Perdoa e ganharás o amor
um outro realce, outra beleza.
é que se punires será o rancor
a tomar mais evidência e mais clareza.

Ibn 'Ammâr. Ibn 'Ammar Al Andalusí: drama de um poeta (trad. de Adalberto Alves e Hamdane Hadjadji)