Reabre o céu depois de uma chuvada
no azul do dia.
É o azul do nada com que se fazem os deuses e a poesia.

Vergílio Ferreira


11/04/2016


Nunca soube o teu nome. Entraste numa tarde,
por engano, a perguntar se eu era outra pessoa -
um sol que de repente acrescentava cal aos muros,
um incêndio capaz de devorar o coração do mundo.

Não te menti; levantei-me e fui levar-te à porta certa
como um veleiro arrasta os sonhos para o mar; mas,
antes de te deixar, disse-te ainda que nessa tarde
bem teria gostado de chamar-te outra coisa - ou
de ser gato, para poder ter mais do que uma vida.

Maria do Rosário Pedreira. Nenhum Nome Depois. Lisboa: Gótica, 2005, p. 13.

27/07/2015

Pai, dizem-me que ainda te chamo


Pai, dizem-me que ainda te chamo, às vezes, durante
o sono - a ausência não te apaga como a bruma
sossega, ao entardecer, o gume das esquinas. Há nos
meus sonhos um território suspenso de toda a dor,
um país de verão aonde não chegam as guinadas
da morte e todas as conchas da praia trazem pérola. Aí

nos encontramos, para dizermos um ao outro aquilo
que pensámos ter, afinal, a vida toda para dizer; aí te
chamo, quando a luz me cega na lâmina do mar, com
lábios que se movem como serpentes, mas sem nenhum
ruído que envenene as palavras: pai, pai. Contam-me

depois que é deste lado da noite que me ouvem gritar
e que por isso me libertam bruscamente do cativeiro
escuro desse sonho. Não sabem

que o pesadelo é a vida onde já não posso dizer o teu
nome - porque a memória é uma fogueira dentro
das mãos e tu onde estás também não me respondes.

Maria do Rosário Pedreira. Nenhum Nome Depois 

10/05/2015

Singela homenagem a Herberto Helder, sem comentários

Mas há outra língua, que falávamos antes de nascer. Uma língua muito antiga, não servia para nada, não era a língua do comércio com os homens. Não era decerto uma língua de sedução, para subornar, ou para dominar. Dela provinham as palavras, estas palavras: fluidos, vento, bilha, órfã, carris, dormir, coração, constelada, cisne, lasciate, vapor, contorno, opala, vem... Existiam ao mesmo tempo que a vida, não desligadas dela. Eram uma dança, uma natação, um voo, eram movimento.
   Tínhamo-las perdido de vista.
   Depois, hoje, reencontradas, são elas que me reencontraram, e me obrigam a lembrar.
   Língua insensata que avança, magnificamente autónoma como um corpo de delfim, a correr sem esforço ao lado do meu corpo, ultrapassando, iludindo-o, rápido através da massa de água que não consegue sustê-lo.

Herberto Helder. Magias

09/05/2015

Procurava paz e os meus olhos iluminaram-se com estas palavras da Bíblia Sagrada.

«A lâmpada do corpo é o olho. Se o olho é são, o corpo inteiro fica iluminado. Se o olho está doente, o corpo inteiro fica na escuridão.»
Mateus, 5, 22-23

08/05/2015

Simplicidade e emoção. Tracy Chapman interpretando o êxito velhinho de Ben E. King. Vale a pena.