Reabre o céu depois de uma chuvada
no azul do dia.
É o azul do nada com que se fazem os deuses e a poesia.

Vergílio Ferreira


10/05/2015

Singela homenagem a Herberto Helder, sem comentários

Mas há outra língua, que falávamos antes de nascer. Uma língua muito antiga, não servia para nada, não era a língua do comércio com os homens. Não era decerto uma língua de sedução, para subornar, ou para dominar. Dela provinham as palavras, estas palavras: fluidos, vento, bilha, órfã, carris, dormir, coração, constelada, cisne, lasciate, vapor, contorno, opala, vem... Existiam ao mesmo tempo que a vida, não desligadas dela. Eram uma dança, uma natação, um voo, eram movimento.
   Tínhamo-las perdido de vista.
   Depois, hoje, reencontradas, são elas que me reencontraram, e me obrigam a lembrar.
   Língua insensata que avança, magnificamente autónoma como um corpo de delfim, a correr sem esforço ao lado do meu corpo, ultrapassando, iludindo-o, rápido através da massa de água que não consegue sustê-lo.

Herberto Helder. Magias

Sem comentários:

Enviar um comentário